domingo, 29 de novembro de 2015

Educação e empresas: uma relação de simbiose

A noção de que aprendizagem é tanto mais válida quando mais se reveste de um carácter experimental e prático não é de hoje. Se remontarmos a Aristóteles, verificamos que este é um dos seus ensinamentos, traduzido na frase: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”, mas não há dúvidas de que este ensinamento ganha maior premência nos nossos dias, por força do desemprego que afeta, de maneira aflitiva, os mais jovens. Em todo o caso, hoje é um ensinamento que ganhou novos contornos e, portanto, se o quiséssemos atualizar teríamos de o acrescentar: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer e a ser”. 

Hoje, o “ser” é quase indissociável do “fazer”. O que fazemos e o lugar que ocupamos profissionalmente na sociedade define cada vez mais quem somos e os rumos do que poderemos vir a ser, numa construção permanente, quase em lego, do nosso ser. As peças ou as competências que vamos adquirindo e sobrepondo, através do que aprendemos ao longo a vida, vão acrescentando valor ao que podemos ser, valor esse que nos torna distintivos quando procuramos um reposicionamento ou uma mudança na carreira ou ainda o ingresso numa profissão. E nesta construção de quem somos, não há dúvidas de que a escola é apenas um dos muitos locais da nossa aprendizagem, muitas vezes feita de modo informal e não formal. Muitos outros lhe sucedem ou com ela coabitam, merecendo igual atenção, como por exemplo as empresas. 



Nos últimos anos as empresas são vistas cada vez mais como espaços privilegiados de aprendizagem, não só porque são elas as entidades que proporcionam os mais significativos momentos de aprendizagem à população adulta ativa mas também pelo papel fundamental que podem ter na formação profissionalizante dos jovens. É por isso que, não só em Portugal mas também por toda a Europa, tem-se procurado desenvolver políticas que comprometam as empresas com os sistemas de educação e formação. 

Hoje sabe-se, porém, que a sua grande dificuldade ou resistência à assunção deste novo papel reside não tanto na falta de predisposição mas num conjunto de fatores associados, muitas vezes, à sua dimensão e estruturação, em particular quando falamos de pequenas e médias empresas (PME). São precisamente as PME que empregam um terço da força de trabalho europeia, assumindo-se como o principal motor do crescimento económico e da criação de empregos. Todavia, apesar da sua expressão, estas empresas também necessitam de auxílio, pois apenas uma em cada três consegue desenvolver novos produtos ou processos. Estas empresas precisam, portanto, de ser mais competitivas e, para tal, de atrair novos talentos. 

Parece, portanto, claro que estamos perante uma relação que pode configurar uma simbiose perfeita: a educação e a formação precisam das empresas para qualificarem mais e melhor os jovens e as empresas precisam de jovens cada vez mais qualificados. Mobilizar as empresas para estes ganhos mútuos é um dos desafios mais prementes, sendo ainda necessário estudar o motivo que tem afastado as empresas dos sistemas de educação e formação. Temos de investir no derrube das barreiras que possam existir ou persistir. Se queremos que as empresas sejam cada vez mais espaços de mais e melhores aprendizagens, primeiro temos de conseguir que as empresas aprendam a aprender para depois poderem ensinar. Envolvê-las em dinâmicas de reconhecimento de competências dos seus colaboradores, e respetivo alinhamento com a sua formação continua, a que se junta a criação de instrumentos de reforço da participação das empresas em formação em contexto de trabalho dos nossos jovens, são duas das estratégias que na ANQEP temos vindo a trabalhar para potenciar esta simbiose entre sistema educativo e formativo e as empresas. Estamos convencidos que esta simbiose será determinante para uma sociedade mais qualificada, mais empregável e consequentemente mais inclusiva, e logo, melhor. 



1 comentário:

  1. O papel das Organizações no âmbito da FCT é de extrema importância, no entanto podem ser identificados alguns pontos fracos.
    Um deles é o recurso sistemático a mão-de-obra a custo zero, o que é feito por algumas empresas que deste modo não necessitam de recrutar mais trabalhadores.
    Assim sendo não é de estranhar que o número de desempregados não pare de aumentar.
    Profissionais qualificados, com anos de experiencia estão no desemprego e já nenhuma empresa os vai contratar.
    No âmbito das formações que vão frequentando, e no contexto da Formação em Contexto de Trabalho, o que fazem é válido, depois já não há posto de trabalho.
    Não são só jovens quem frequentam as diversas modalidades de formação, também são adultos com vários anos de experiência, em muitos casos optam por formações na sua área profissional, o eu saber e saber fazer não é valorizado.
    Não são jovens…
    Estão na fila para a pensão social…
    É tempo das empresas refletirem sobre o seu papel social, sobre as Pessoas…

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