segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Gestão da mudança no Ensino Profissional

No âmbito da Educação e Formação, assistimos hoje a uma mudança que resulta de estarmos num novo paradigma, centrado na noção da aprendizagem ao longo da vida, focado nas competências e na existência de uma multiplicidade de contextos de aprendizagem. Neste novo paradigma, o relevante são as aprendizagens que se fazem e a utilidade das mesmas, em especial considerando as exigências de competências que são requeridas pelo mercado de trabalho e para a concretização de uma cidadania plena e participativa. Pouco importa como se aprendeu ou onde. O importante é ter-se adquirido competências, atitudes e comportamentos que possam ser evidenciáveis, aplicáveis, mobilizáveis para novas situações e capazes de ajudar a solucionar problemas concretos e a tornar todos e cada um de nós num cidadão activamente envolvido no desenvolvimento da nossa sociedade.

Ora, isto pressupõe que o nosso sistema de ensino e formação mude, que se torne cada vez menos académico e cada vez mais ligado à necessidade de aquisição de competências para o exercício integrado de uma atividade profissional e da cidadania plena e ativa, sendo assim capaz de responder aos requisitos desta nova era. No caso específico dos jovens, ao terminarem um percurso qualificante, têm de estar aptos a transitar para o mundo do trabalho, têm de ser “empregáveis” e de manter essa condição ao longo da vida, através de um processo contínuo de aprendizagem. 

Se olharmos para trás, verificamos que essa mudança já começou, traduzindo-se de forma clara na expansão do ensino profissional nas escolas da rede pública de ensino.


Mas, será que temos sido capazes de compreender e acompanhar essa mudança? E como é que vamos, como cidadãos, passar a ser seres em constante aprendizagem, continuadamente empregáveis?

Segundo John Kotter, especialista em gestão da Harvard Business School, qualquer mudança para se gerir com sucesso deverá ter em consideração oito passos. Vejamos se os conseguimos aplicar à problemática do ensino profissional em Portugal:


1º passo: Criar um sentido de urgência.

Este é um passo decisivo para que todos percecionem a necessidade da mudança e sintam necessidade de agir. No caso do ensino profissional, esta urgência tornou-se imperiosa com a recente crise económica e o flagelo do desemprego. Mais do que nunca, os Estados-Membros e os seus cidadãos sentiram que ou detêm competências efetivamente relevantes para o mercado de trabalho e qualificações adequadas às exigências da sociedade moderna ou dificilmente obtêm um lugar no mercado de trabalho.


2º passo: Criar alianças administrativas.

Para que a mudança se efetive é necessário reunir um grupo de pessoas com capacidade para mobilizar para a mudança e vencer as resistências. A criação de alianças deve ser a preocupação de todos os atores relevantes para o desenho e implementação das políticas públicas de ensino e formação profissional. Para que o ensino profissional ganhe relevância, impacto e alcance os níveis de exigência pretendidos é necessário envolver depois as várias estruturas existentes na operacionalização, todas com o mesmo propósito. Mas, antes, importa criar uma equipa coesa que lidere localmente essa mudança. Esse é o trabalho que a Agência atribuiu aos Centros para a Qualificação e o Ensino Profissional, considerando-os parceiros estratégicos, com um papel determinante na construção de pontes entre os mundos da educação, da formação e do emprego, numa perspetiva de aprendizagem ao longo da vida. É fundamental dotar estas estruturas dos recursos necessários ao pleno desenvolvimento da sua atividade.


3º passo: Desenvolver uma visão de mudança.

A visão aponta sempre o caminho que se quer seguir e define onde se quer chegar no futuro. No caso do ensino profissional, a visão do futuro é uma perfeita adequação entre as ofertas de qualificação disponibilizadas pelo sistema nacional de qualificações e as competências requeridas pelas empresas, uma procura de cursos profissionalizantes na ordem dos 50% dos jovens em idade de frequência do ensino secundário, que optam por este percurso por o considerarem mais adequado para corresponderem às suas expectativas de uma vida realizada e feliz.


4º passo: Comunicar a visão.

Para que todos trabalhem em prol da visão, é necessário que esta seja conhecida e compreendida. Só assim se estabelecem compromissos para o seu cumprimento. A divulgação e partilha da visão subjacente ao ensino profissional tem sido uma tarefa amplamente assumida pela ANQEP nos últimos dois anos, mediante um slogan que tem feito parte de todos os eventos dirigidos aos jovens: “Projeta o teu futuro”.


5º passo: Capacitação das pessoas e remoção das barreiras.

Este é um passo determinante, para realinhar a equipa e dar-lhe o apoio fundamental para que a mudança se efetive. Neste domínio, a ANQEP tem procurado criar instrumentos que permitam colmatar algumas lacunas que o sistema evidenciava, como por exemplo um Sistema de Antecipação de Necessidades de Qualificações (SANQ), um referencial de competências para o professor/formador do ensino profissional, mecanismos que permitem começar a redesenhar as qualificações tendo por base os resultados de aprendizagem ou o guia de orientação para apoiar os processos de orientação e encaminhamento de jovens.


6º passo: Criar vitórias a curto prazo.

As equipas apenas prosseguirão motivadas no esforço da mudança se sentirem que há compensações ou resultados que se tornam conhecidos ao longo do percurso. Este é um passo que se começa a dar agora, em várias frentes (como os outputs para a construção de uma rede de ofertas mais consentânea com as necessidades de qualificações reveladas pelo Sistema de Antecipação de Necessidades de Qualificação ou para a implementação de um Sistema de Garantia da Qualidade no Ensino Profissional, em linha com o Quadro de Referência Europeu de Garantia da Qualidade para o Ensino e Formação Profissionais).


7º passo: Não abrandar o ritmo.

É fundamental que, com os primeiros resultados, não se diminua o ritmo. As mudanças levam tempo, mas exigem persistência. Assim, os próximos tempos serão ainda de muito trabalho, contando-se, por exemplo, dar continuidade e concluir o trabalho já efetivado com a referenciação dos cursos profissionais ao Catálogo Nacional de Qualificações, alargar a todas as Comunidades Intermunicipais a aplicação do módulo de aprofundamento regional do SANQ e concluir a implementação do Sistema de Garantia da Qualidade no Ensino Profissional. 


8º passo: Cristalizar a mudança.

Uma mudança só se efetiva quando passa a fazer parte do ADN ou da cultura organizacional. Em Portugal e com respeito a esta matéria, entende-se que a mudança cristalizará quando o ensino profissional for socialmente entendido como uma opção de primeira escolha, quando as empresas se assumirem como parceiros estratégicos do mesmo (por via da disponibilização regular de períodos de formação em contexto de trabalho e da participação na redefinição dos currículos) e quando tivermos 50% dos jovens a optar por vias de dupla certificação.


Acreditamos estar no caminho certo e esperamos alcançar estas metas até 2020.